quarta-feira, 24 de maio de 2017

FC Climática & Solarpunk no SESC Santos

Ficção Climática & Solarpunk no Sesc Santos

DIA 1:
201705201010P7 — 20.770 D.V.


“Em uma análise a posteriori, constatamos que, antes da publicação da nossa antologia Solarpunk em dezembro de 2012, o solarpunk era um movimento cultural à procura de um subgênero literário fantástico para chamar de seu.”
[trecho da minha apresentação]

Acordei hoje bem cedo, pois meu voo para São Paulo estava com partida do Santos Dumont prevista para às 07h10.  O despertador do celular falhou, mas a “sirene de fábrica” velha e confiável do relógio digital do remoto século XX me acordou dez minutos mais tarde.
Banho e desjejum tradicional e um UBER para às cinco e pouco da matina.  Sob condições de trânsito inexistentes, o translado de casa até o aeroporto levou coisa de dez ou doze minutos.
Uma vez no Santos Dumont, como não portava bagagem para despachar, fiz meu ckeck-in no próprio totem eletrônico da Gol.  Aproveitei para fazer também o check-in do voo de volta que pegarei para o Rio na próxima segunda-feira.
A leitura no saguão de embarque e também durante o voo de 52 minutos de duração foi a antologia Future Primitive: The New Ecotopias (Tor Books, 1994), organizada pelo Kim Stanley Robinson.  Durante o pouso em Congonhas, enfim concluí a leitura maçante da peça mais longa do livro, “‘A Story’, by John V. Marsch”, do Gene Wolfe.  Só depois descobri que se trata do fragmento de um romance e, ainda por cima, o terço do meio desse romance…  Assim não dá!  Pena, pois, até então, os trabalhos dessa antologia estavam mantendo uma média excelente.
O voo Gol 1003 transcorreu tranquilo e sem maiores percalços, não obstante o atraso de dez minutos na decolagem e o fato de não haver assentos marcados.  Como a equipe de terra avisou os passageiros sobre isto ainda no saguão de embarque, procurei ingressar logo na fila de embarque assim que os alto-falantes chamaram e consegui pegar um assento razoável.
Ao contrário do que aconteceu no embarque no Santos Dumont, em Congonhas havia finger de desembarque e, porque estava apenas com bagagem de mão, pude me dirigir direto à saída.
Na saída do desembarque, Plínio — o motorista de táxi contratado pelos organizadores do evento para fazer meu translado para Santos — já me aguardava com meu nome escrito em letras garrafais numa folha de papel.
A viagem de São Paulo para Santos foi rápida e tranquila.
Combinei com o Plínio que ele ou seu sócio Anaíldo deverá me buscar às 06h30 da próxima segunda-feira para meu translado de volta, Santos – Aeroporto de Congonhas.
Para minha felicidade, os recepcionistas do Atlântico Golden me deixaram subir para o quarto 313 assim que cheguei ao hotel, às 10h20.  Assim, pude descansar um pouco, ler um bocado e dar uma última repassada na minha apresentação.
Impressões iniciais do quarto: sinal de WiFi muito bom e TV a cabo com muitos canais (NET) que realmente funcionam.J
*     *      *

Às 14h00 saí do Atlântico Golden para o SESC via UBER.  Uma vez descobertos os endereços do hotel e da instituição, o aplicativo funcionou a contento e o veículo me conduziu ao destino em segurança em cerca de dez minutos.
O SESC Santos ocupa um quarteirão inteiro: autêntico colosso!  Para não me perder lá dentro, apresentei-me à recepção e expliquei ao que vinha.  A recepcionista me orientou até o guichê de outra funcionária, a uns cem metros de distância, e lá repeti minha historinha.  Essa segunda funcionária chamou Solange Alboreda, coordenadora do evento Cli-Fi: Ficção Climática, com a qual já havia combinado minha participação há meses via e-mail e telefone.
Solange me conduziu numa turnê rápida pelas instalações do SESC, com ênfase ao teatro gigantesco e belíssimo, ao auditório onde eu faria minha apresentação — e onde aproveitamos o ensejo para testar o arquivo da referida apresentação em PowerPoint — e à espaçosa área externa da instituição, com destaque para a piscina sob a forma de locomotiva a vapor.


Solange Alboreda, coordenadora do evento.


Em seguida, Solange regressou à sua sala e eu retomei a leitura do conto “The Bead Woman”, da Rachel Pollack, publicado na antologia Future Primitive: The New Ecotopias.  Uma hora mais tarde, voltamos a nos reunir para nos dirigirmos ao auditório.  Uma vez lá, reencontrei o amigo Guilherme Kujalski, que indicou meu nome para participar deste evento no SESC.  Conversamos bastante sobre seminários e congressos de literatura fantástica que frequentamos juntos, como os patrocinados pelo Itaú Cultural e as Fantasticons.  Guilherme é o curador da mostra de cinema Cli-Fi, cerne do evento cultural.
Travei contato com um cinéfilo santista, algo tecnófobo, Rogério de Lima, e revi um amigo da velha guarda da FC paulistana, Ataíde Tartari, que me apresentou a esposa, Rosane Gregório.


Rogério de Lima, Guilherme Kujalski e GL-R.


Ataíde Tartari & Rosane Gregório.

Solange Alboreda e Guilherme Kujalski.



Ante uma plateia de cerca de vinte pessoas, iniciei enfim minha apresentação, “Ficção Climática & Solarpunk”.
Comecei do princípio, introduzindo os conceitos de ecoficção, ficção de mudança climática e solarpunk.  Em seguida, apresentei os elementos constituintes necessários dos trabalhos de ecoficção, de acordo com o teórico Jim Dwyer, autor de Where the Wild Books Are: A Field Guide to Ecofiction (University of Nevada Press, 2010).  Em seguida falei dos temas principais da ecoficção e procurei distinguir os apocalipses ambientais dos demais tipos de apocalipse.
Daí, passei à ficção de mudança climática, conceituando esse gênero literário e apresentei alguns textos clássicos, como os romances de J.G. Ballard; o romance curto Floresta é o Nome do Mundo (1972) da Ursula K. Le Guin e a antologia Future Primitive, minha leitura atual.  Então, introduzi o conceito de “Antropoceno” e passei a apresentar os grandes textos da ficção climática escritos nas duas primeiras décadas do século XXI, dentre os quais os romances distópicos de Margaret Atwood; a trilogia Ciência na Capital, do Kim Stanley Robinson; os filmes O Dia Depois de Amanhã (2004) e Interestelar (2014); a coletânea Pump Six and Other Stories (2009) e o romance biopunk The Windup Girl (2009), ambos do Paolo Bacigalupi; a antologia Loosed upon the World: The Saga Anthology of Climate Fiction (2015); e o romance atualíssimo, New York 2140 (2017), do Kim Stanley Robinson.
Da ficção de mudança climática, passei ao solarpunk, tratando-o como um subgênero punk da ficção científica e comparando-o ao steampunk, destacando sua visão otimista de ecotopia e seu caráter ecofuturista, em vez de retrofuturista.  Falei do papel pioneiro de Clifford D. Simak como um solarpunk avant la lettre em seu romance fix-up City (1951).
Em seguida, falei do movimento cultural solarpunk, proposto pelo ideólogo Adam Flynn em seu manifesto de 2014, quase dois anos após a publicação da nossa Solarpunk: Histórias ecológicas e fantásticas em um mundo sustentável.  Daí, citei brevemente as palavras de ordem desse manifesto cultural.
Enfim, falei da antologia Solarpunk (Draco, 2012), contando um pouco da gênese do projeto da “triantologia” punk: Vaporpunk: Relatos steampunk publicados sob as ordens de Suas Majestades (2010); Dieselpunk: Arquivos confidenciais de uma bela época (2011); e Solarpunk: Histórias ecológicas e fantásticas em um mundo sustentável (2012).  Li o prefácio dessa terceira antologia para a plateia, destacando que, não obstante seu papel pioneiro de marco zero literário do movimento solarpunk, não se trata de um livro política ou ecologicamente engajado, mas, antes, da reunião de nove narrativas cujo objetivo precípuo é entreter o leitor e não despertar sua consciência ecológica.
Concluí minha apresentação com as descrições sumárias dessas nove narrativas:
“Soylent Green is People” (Carlos Orsi): ficção científica noir.  Em bela trama policial futurista, detetive investiga o desaparecimento de uma anciã.
“O Confronto dos Reinos” (Telmo Marçal): rara distopia solarpunk que aborda a hipótese de humanos fotossintéticos canibais.
“E Atenção: Notícia Urgente!” (Romeu Martins): near future com temática atual, inclusive, indústria transgênica e armas biológicas, além de corrupção política nas altas esferas (escrito alguns anos antes da descoberta do Petrolão).
“Era uma Vez um Mundo” (Antonio Luiz M.C. da Costa): história alternativa ambientada no universo ficcional Outros 500.  Na década de 1930, terroristas de extrema-direita planejam sabotar usina experimental de fusão termonuclear.
“Fuga” (Gabriel Cantareira): thriller de ficção científica em que a heroína empreende fuga para sabotar tecnocracia paulistana.
“Gary Johnson” (Daniel Dutra): ficção científica com cheiro de história alternativa.  Inventor brasileiro Landell de Moura extrai energia vital de seres humanos.
“Xibalba Sonha com o Oeste” (André Soares Silva): história alternativa com temática instigante e inovadora, ambientada em linha histórica onde a civilização ocidental aparentemente não existe.  Em plena Baía da Guanabara, ameríndios tecnologicamente avançados — mas dependentes da civilização chinesa — exploram a energia dos relâmpagos atmosféricos.
“Sol no Coração” (Roberta Spindler): narrativa de FC pungente e original, baseada na premissa de que os humanos do futuro se tornaram fotossintéticos graças ao emprego da nanotecnologia.
“Azul Cobalto e o Enigma” (Gerson Lodi-Ribeiro): presente alternativo com ares futuristas ambientado no universo ficcional Três Brasis, em que a República de Palmares se transforma na maior potência da Terra.  Operativo brasileiro trajado com superarmadura — espécie de Homem-de-Ferro tupinica — defronta-se com misterioso agente secreto imortal de Palmares em vários pontos do Sistema Solar.[1]
*     *      *

Finda a apresentação propriamente dita, passei a palavra à plateia para que essa manifestasse seus comentários e perguntas.  Não obstante o público relativamente reduzido, a participação foi intensa, com dezenas de questões, colocações e comentários, não só a respeito das ficções apresentadas, mas também sobre as questões ecológicas e de autossustentabilidade correlatas àqueles textos.  Após mais de uma hora de bate-papo, encerramos as atividades do SESC nesta noite de sábado.  Guilherme, Rosane, Ataíde e eu decidimos sair para jantar.  Assoberbada de trabalho, Solange, infelizmente, não pôde nos acompanhar.
Caminhamos os quatro por cinco ou seis quadras, do SESC até o apartamento do casal.  Assim pude conhecer um pouco da cidade de Santos.  A impressão inicial é de que essa região central da cidade é uma versão em escala reduzida e muito mais ordeira da Zona Sul do Rio de Janeiro (com muito menos criminalidade, também).  A parte mais importante da cidade, que inclui seu centro histórico, situa-se na Ilha de São Vicente, dividida entre os municípios de Santos e São Vicente.  Essa parte insular e histórica de Santos é dividida por canais, construídos para escoar a água da chuva.  Meu hotel se situa no bairro Gonzaga, entre os canais 2 e 3.
Fizemos uma parada breve no apartamento de Rosane & Ataíde.  Da varanda da unidade, situada no oitavo andar do edifício, pudemos avistar os guindastes do maior porto da América Latina, os arranha-céus de trinta ou quarenta andares que me fizeram lembrar os da Praia da Boa Viagem, no Recife, e os morros da vizinhança.
Saímos de carro rumo à região do canal 1, para o restaurante e pizzaria Van Gogh.  Como chegamos a esse estabelecimento badalado por volta das 20h00, foi possível escolher uma mesa aprazível para nós quatro.  Jantamos duas pizzas: uma calabresa e outra de brusqueta com mozarela de búfala, regadas por dois tintos, o português Dão Invulgar e italiano da Toscana, Montepulciano Fantine.  Ambos saborosos, assim como a pizza calabresa.  Quanto à vegetariana, nem sequer sobrou-me energias para prová-la.J
Não obstante a excelência dos tintos e das pizzas, como sói acontecer nesse tipo de evento, o melhor de tudo foi o papo com os amigos.  Conversamos muito e de tudo um pouco: das nossas carreiras e da perspectiva próxima ou distante da aposentadoria; de escritas e leituras; de congressos de literatura fantástica passados, presentes e futuros; de comida e vinhos, é lógico; de amigos que se foram, com ênfase em Max Mallmann; da crise política brasileira; de dietas, saúde e estilos de vida saudáveis.  O papo estava tão bom que, mesmo encerrado o ágape, só pagamos a conta e deixamos o estabelecimento por volta das 23h00.

Jantar no Van Gogh.


O casal Rosane & Ataíde me deixou no hotel.  Combinei com o Guilherme que amanhã cedo entrarei em contato com o taxista que fará nosso translado de Santos para São Paulo na segunda-feira de manhã, para tentar adiantar o horário em que ele deverá nos buscar em nossos respectivos hotéis.
Atlântico Golden, Santos, Rio de Janeiro, 20 de maio de 2017 (sábado).

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DIA 2:
201705211145P1 — 20.771 D.V.

Acordei por volta das 06h20 e, após uma ducha rápida, parti direto para o desjejum no sétimo andar do Atlântico Golden.
Café da manhã com tudo de bom: queijos e frios (salame, inclusive); ovos mexidos bem macios; café preto e forte; iogurte de mamão com pêssego; sucrilhos com leite e, o melhor de tudo, suco de laranja de verdade e bem fresquinho.  Com toda a certeza, não precisarei almoçar hoje.
Uma vez de volta ao quarto 313, comecei a trabalhar nesta crônica — tarefa interrompida diversas vezes para tentar entrar em contato com o taxista responsável pelo translado de amanhã.  Liguei para a recepção e fui informado de que os celulares da operadora Claro não funcionam no hotel.  Fiz uma chamada local para o celular do tal Plínio pelo telefone fixo do quarto, mas caiu em caixa postal.  Preocupado, liguei para a Solange lá no SESC e ela prometeu tentar resolver o problema.
Concluída a etapa atual da presente crônica, retomei a escrita do terceiro romance de da trilogia Mundo-sem-Volta, em que estou trabalhando de forma intermitente já há alguns anos, ambientada no universo ficcional Tramas de Ahapooka, pelo qual já publiquei o romance A Guardiã da Memória (Draco, 2011) e as noveletas “Alienígenas Mitológicos” (Isaac Asimov Magazine de Ficção Científica nº 15, Record, 1991) e “A Filha do Predador” (Sci-Fi News Contos nº 1, 2001).  Consegui escrever duas cenas curtas sobre o mesmo tema geral: a eleição inédita de uma humana para o cargo de chefe de governo do Império, a maior potência do Grande Continente da Ahapooka.  A primeira cena foi inserida no penúltimo capítulo que escrevi até agora e a segunda no último.
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Às 15h00 saí do quarto 313 disposto a percorrer a pé os menos de três quilômetros que separam o Atlântico Golden do SESC Santos, com auxílio do aplicativo MapMe.  Vã pretensão.  Pois, a chuva fina e irritante atrapalhou meus planos, obrigando-me a pedir um UBER, que me levou ao SESC em cerca de dez minutos.  Mesmo com a tarifa de 1.2, a corrida saiu pouco mais de R$ 9,00.
Ao chegar, liguei para a sala da Solange Alboreda e a funcionária que me atendeu apareceu para abrir as portas do auditório.  Aguardei na primeira fila até que Solange e Guilherme Kujalski aparecessem.  Os dois trouxeram a plateia com eles.  Ambos falaram brevemente sobre a mostra de cinema Cli-Fi e então deram início à exibição da última das oito sessões da mostra, o filme de ficção científica Interestelar (2014), de Christopher Nolan.  Com 169 minutos de duração, essa exibição se estendeu até quase 19h00.
Achei que a plateia de cerca de trinta pessoas iria se dispersar após o fim do filme, mas todos permaneceram para a sessão de perguntas e debates.  Como curador da mostra de cinema Cli-Fi, Guilherme destacou a importância dos filmes de ficção climática que não constituem meros documentários.  Quando ele me passou a palavra, falei um pouco sobre os tópicos e temáticas do filme; da consultoria científica prestada pelo astrofísico relativista Kip Thorne ao diretor e roteiristas; expliquei os conceitos de buracos negros e buracos-de-minhoca; e me alonguei um pouco sobre as semelhanças temáticas entre Interestelar e 2001: uma Odisseia no Espaço.
Bastante interessada, a plateia apresentou dezenas e dezenas de perguntas e colocações, algumas de caráter astrofísico, outras de caráter ecológico e ambiental.


Mostra de cinema Cli-Fi: bate-papo pós-exibição de Interestelar.



Ao fim do evento, acompanhados pelo casal Rosane & Ataíde, eu e Guilherme nos dirigimos à sala da Solange para tentar acertar a antecipação do horário de nosso translado para São Paulo amanhã de manhã.  Nada feito.  Daí, despedimo-nos da Solange e seguimos sob uma chuva já mais grossa até o automóvel do casal, onde embarcamos e rumamos para uma confeitaria gourmet, o Empório São José.
Uma vez no segundo piso do estabelecimento, pedimos nossas opções de pratos, no meu caso, buffet de sopas e salgadinhos (também havia umas sobremesas apetitosas, mas não cheguei nem perto).  Para acompanhar, escolhi um Pizzato Reserva Merlot 2010, rótulo longevo, mesmo em se tratando dessa vinícola de qualidade.  Tramei uma minidegustação às cegas para Rosane e o Pizzato a fez perder os preconceitos em relação aos tintos brasileiros.  Tomei dois pratos de caldo verde e um prato de salgadinhos.  Durante a refeição, conversamos sobre estilos de vida autossustentável; pais e filhos; minimalismo; indignação com a corrupção sistêmica que afeta o Brasil; ficção climática e outros bichos mais.
Por volta das 22h00, saímos da confeitaria e embarcamos no automóvel do casal, que graciosamente nos deixou em nossos respectivos hotéis.
Amanhã pretendo acordar às 05h00 para me arrumar com calma para embarcar no translado para Congonhas e de lá pegar a ponte aérea para o Rio.
Atlântico Golden, Santos, Rio de Janeiro, 21 de maio de 2017 (domingo).

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DIA 3:
201705221250P2 — 20.772 D.V.

Acordei hoje às 05h00 com o serviço despertador do hotel, tomei banho, concluí a arrumação da mochila deixada semiprontificada de véspera e desci para o check-out.  Enquanto quitava as pequenas despesas da hospedagem (frigobar e telefonemas locais, pois as diárias foram pagas pelo SESC), Guilherme Kujalski apareceu na recepção, pois regressaria para São Paulo de carona no táxi que o SESC contratara para mim.  Subi para um desjejum expresso no restaurante do hotel no sétimo andar, sem, no entanto, abrir mão do iogurte e dos queijos & frios.  Às 06h00 estava de volta na recepção.
Agendado para as 06h30, nosso táxi chegou às 06h10.  Uma felicidade, pois estávamos preocupados com o horário de meu embarque de regresso para o Rio no Aeroporto de Congonhas.
Com os engarrafamentos e retenções na saída de Santos e na altura de Diadema, no Grande ABCD Paulista, nossa viagem até Congonhas durou duas horas e vinte e cinco minutos.  Algo estressado, despedi-me do Guilherme e do motorista Anaíldo, desembarquei do táxi no início da calçada da área de embarque do aeroporto e caminhei a passos rápidos até o setor correto, pois já eram 08h35 e talvez já não desse mais tempo para pegar meu voo, pois o Gol 1014 decolaria às 09h05.
Quando enfim me deparo com o painel informativo das partidas, quedo-me em êxtase ao descobrir que o voo só partiria às 09h45.
Mais calmo e com tempo de sobra, como já havia feito o check-in anteontem e não tinha bagagem para despachar, dirigi-me lépido e fagueiro ao portão 17.  Houve tempo até mesmo para um pulinho no toalete para atender um chamado da natureza.  Minutos mais tarde, descobri que o portão de embarque do voo Gol 1014 havia mudado para o nº 9.  Sem pressa, caminhei as duas ou três centenas de metros até lá, com direito a uma mudança de piso.
O embarque se deu com pontualidade, mas o voo só decolou às 10h05.  Viagem tranquila, a tripulação de cabine da Gol serviu até um sanduiche que não caiu mal.  Leitura de bordo: noveleta “Chocco”, de Ernest Callenbach, na antologia Future Primitive.
Pousamos no Santos Dumont às 10h40.  Meia hora e um aeroporto de caminhada mais tarde, embarcava no UBER que me traria de volta para o lar doce lar.
Resumo da empreitada: esta ida a Santos para fazer a apresentação “Ficção Climática & Solarpunk” no sábado e participar do bate-papo pós-exibição do Interestelar no domingo constituiu uma experiência divertida e gratificante, além de uma oportunidade rara de rever velhos amigos, como Guilherme Kujalski e Ataíde Tartari, e fazer novos amigos, como Solange Alboreda e Rosane Gregório.  O fato é que é sempre bom falar do que se gosta.  A se lamentar, apenas o fato de não ter havido oportunidade de passear e conhecer Santos um pouco melhor, pois o clima não ajudou.  Quem sabe esse anseio insatisfeito não serve de pretexto para eu voltar outra vez com mais calma?
Jardim Botânico, Rio de Janeiro, 22 de maio de 2017 (segunda-feira).



Presentes no SESC Santos:
Ataíde Tartari
Gerson Lodi-Ribeiro
Guilherme Kujalski
João Rúbio
Rogério de Lima
Rosane Gregório
Solange Alboreda




[1].  A versão em PDF da apresentação “FC Climática & Solarpunk” pode ser baixada no link abaixo:

terça-feira, 29 de novembro de 2016

Prêmio Argos 2016Cápsula do Tempo
no Salão Carioca do Livro

201611262359P7 — 20.595 D.V.

“Prefiro levar agora meu kit Argos para montar.”
[Erick Sama, detentor do Prêmio Argos Especial 2016, ao receber seu troféu desmontado]

“Draco 4x0!”
[Brado dos autores e antologistas da Draco ao fim da cerimônia de entrega do Argos 2016]

Após várias desmarcações e confirmações, eis que chegou enfim o dia aguardado da cerimônia de entrega do prêmio Argos 2016, agraciado pelo Clube de Leitores de Ficção Científica aos melhores da literatura fantástica brasileira em quatro categorias diferentes.
Saí de casa cedo rumo ao aeroporto Santos Dumont para encontrar Erick Sama, que embarcou de Sampa para receber seu Argos Especial, concedido pelo conjunto da obra a indivíduos ou entidades que se dedicaram ao desenvolvimento e à divulgação dos gêneros da literatura fantástica em língua portuguesa.

Erick Sama turistando no VLT Carioca, rumo ao Argos!


Às 10h40 embarcávamos na parada Santos Dumont do VLT rumo à parada dos museus, junto à Praça Mauá.  Primeira experiência de VLT para mim e para o Erick.  Compramos o cartão bilhete-único para ele e o carregamos com passagens de ida e volta na máquina automática instalada na parada.  Para mim, o Riocard funcionou a contento.  Viagem tranquila e sem incidentes pelo centro do Rio nesta bela manhã ensolarada de primavera carioca, com direito a contemplar a Cinelândia, Rio Branco e Candelária de ângulos inteiramente novos.  Quinze minutos mais tarde, desembarcávamos na parada dos museus e caminhávamos por cerca de cem metros até o Armazém nº 2 do cais do porto, um dos dois armazéns que abriga a LER – Salão Carioca do Livro 2016.

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O Salão do Livro ocupa os armazéns 2 e 3 do cais do porto.  Espaço gigantesco, razoavelmente climatizado (necessidade inarredável nesta primavera quase verão), abrigando alguns estandes de vendas (mas, não tantos, nem de longe, quanto caberia ali), salas de leitura e declamação de poesias (muitas voltadas ao público infantil), restaurantes, quiosques e auditórios.  Na lateral dos armazéns voltada para a Baía da Guanabara, situam-se conjuntos de mesas, cadeiras, redes e uma penca de food trucks com as propostas gastronômicas mais diversas e os preços mais absurdos para quem se propõe a fornecer fast food.

Cerimônia de entrega do Argos 2016 no Salão Carioca do Livro.


Entramos pela lateral do Armazém nº 2 voltada para a Praça Mauá.  Como já havia me credenciado para o evento pela internet, o acesso nos foi facultado sem problemas, mas não recebemos crachás (que, também, não fizeram muita falta).  Dali, caminhamos a passos lentos e olhares admirados até o fundo do Armazém nº 3, onde se situa o auditório-teatro Machado de Assis, local em que se daria a cerimônia do Argos.  Esse novo espaço cultural carioca está muito legal.  Como chegamos uma hora e meia antes do horário marcado para o início do evento, regressamos do teatro ao Armazém nº 3 propriamente dito e sentamos num banco para bater papo.  Erick me contou sobre as experiências de sua última estada no Japão, onde se hospedou numa casa de família pelo sistema air-b&b, o que lhe permitiu maior imersão na cultura japonesa.
Aproveitei o ensejo e me esforcei para presentear o Erick com um exemplar autografado do meu Vita Vinum Est!: História do Vinho no Mundo Romano (Mauad X, 2016), mas ele fez questão de pagar pelo livro.
Pouco depois, apareceram os amigos Ricardo França e Eduardo Torres e o presidente do CLFC, Clinton Davisson.  Também encontrei ali Ronaldo Fernandes, meu velho amigo dos tempos da Astronomia no Observatório do Valongo.  Ele compareceu com a esposa Simone e a filhinha Letícia, essencialmente para entreter a pirralha e iniciá-la gradativamente nos prazeres da literatura numa ou várias das muitas rodas de leitura para crianças pequenas.  Nessa ocasião, não tive oportunidade de conhecê-las pessoalmente.
Por volta de meio-dia, trinta minutos antes do horário previsto para o início da cerimônia, dirigimo-nos para o Machado de Assis.  Como a atividade anterior ainda não havia acabado, a organização do teatro nos abrigou no camarim feminino, cuja climatização era mais efetiva do que as dos armazéns.

Eduardo Torres, Erick Sama, GL-R e Clinton Davisson no Camarim Feminino.

Ana Lúcia Merege, única mulher no Camarim Feminino.

Ricardo França, Luiz Felipe Vasques, Edu Torres e Daniel Ribas.

Aqui ficamos por um bom tempo...


Às 12h30, horário marcado para o começo da cerimônia, a declamação de poesias no Machado de Assis prosseguia firme e forte, mas não ligamos, pois parte do povo que combinara comparecer ao evento ainda não havia dado as caras.  De fato, minutos mais tarde, João Beraldo e Ana Lúcia Merege estabeleceram contato via WhatsApp e nós despachamos uma expedição de resgate para conduzi-los em segurança até o Machado de Assis.  Encontramos os dois numa mesa do Café dos Livros, restaurante anexo a um auditório no fim do Armazém nº 2.  Dali, avistamos Luiz Felipe Vasques e Daniel Russell Ribas que acabavam de chegar.  Quando todos nos reunimos no auditório do teatro, apareceram Bráulio Tavares, Cirilo Lemos e Gerson Avillez, além dos participantes do Cápsula do Tempo, Renata Aquino, Daniel Faleiro e Diogo Salles.

Plateia na Cerimônia de entrega do Argos 2016.

Plateia na Cerimônia de entrega do Argos 2016.

Plateia na Cerimônia de entrega do Argos 2016.

Plateia na Cerimônia de entrega do Argos 2016.



*     *      *

Apesar do atraso e de termos sido obrigados a dividir o palco com a equipe de montagem de uma peça que seria apresentada após a cerimônia, o evento transcorreu sem maiores incidentes.[1]  O público presente de cerca de vinte e cinco pessoas foi bastante inferior ao das cerimônias de entrega anteriores, desenroladas na cúpula Carl Sagan do Planetário da Gávea.
Clinton Davisson abriu os trabalhos falando um pouco sobre a história do CLFC e da premiação.  Em seguida, convidou-me a subir ao palco para entregar o Argos Especial ao Erick Sama.  Em breves palavras, destaquei a participação fundamental do Erick e da Editora Draco na eclosão do boom atual de publicações de literatura fantástica nacional, levado avante por editoras de pequeno porte, e da manutenção desse ritmo ao longo dos últimos sete anos.  Em seu discurso de agradecimento, o agraciado exibiu um filmete sobre as publicações da editora e falou um pouco sobre o autêntico esforço de guerrilha necessário para publicar literatura fantástica no mercado brasileiro.

Presidente do CLFC, Clinton Davisson, abre os trabalhos.

Erick Sama recebe o Argos Especial.

Clinton, Erick e GL-R.

Neste certame do Argos, pela primeira vez em cinco anos trabalhando com a mesma empresa para a confecção dos troféus, dois os quatro chegaram quebrados ou descolados de suas bases.  Embora não constituísse problema sério, do tipo que impactaria no êxito da cerimônia, o incidente gerou algumas piadinhas do tipo “convoco o vencedor para receber seu kit Argos para montar em casa”.  Ao todo, o Argos Especial do Erick e o Argos para a Melhor Ficção Curta vieram danificados.  Contudo, nada que algumas gotas de superbonder não possam curar.
Aproveitando a presença de Erick no palco e considerando o papel relevante que a Draco vem desempenhando no lançamento de dezenas de antologias nos últimos anos, Clinton o convidou para entregar o Argos 2016 na categoria Melhor Antologia ou Coletânea.  Como é tradição, o Argos se assemelha ao Oscar em dois aspectos importantes: 1) premia os melhores do ano anterior; e 2) o vencedor e a plateia só descobrem quem receberá o troféu na hora em que o envelope é aberto pelo convidado responsável pelo anúncio do vencedor.
Após certo esforço para ler os nomes dos trabalhos e antologistas concorrentes projetados contra a cortina negra do teatro, Erick abriu o envelope e anunciou os vencedores: Monstros Gigantes - Kaiju (Draco, 2015), organizada por Luiz Felipe Vasques e Daniel Russell Ribas.  Os antologistas subiram ao palco e proferiram seus discursos emocionados diante dos aplausos entusiásticos da plateia.  Fiquei satisfeito com o resultado, pois havia votado na Monstros Gigantes como melhor antologia.

Erick na entrega do Argos, categoria Melhor Antologia.

Luiz Felipe Vasques e Daniel Russell Ribas, antologistas da Monstros Gigantes.


Em seguida, Clinton convocou Bráulio Tavares para a entrega do Argos 2016 na categoria Melhor Ficção Curta.  Bráulio falou da importância passada do CLFC, nos tempos pré-internéticos de antanho em que frequentar as reuniões do clube constituía uma das formas mais baratas e confiáveis de se receber informações sobre livros e filmes do gênero.  Afirmou julgar o conto a melhor forma de expressão da ficção fantástica e que, como autor, considera-se, acima de tudo, um contista.  Em seguida, abriu o envelope e anunciou o trabalho vencedor: “Grande Caçador Branco”, de Luiz Felipe Vasques, publicado na mesma antologia que ele coorganizou com Daniel Ribas.  Assim, a Monstros Gigantes se sagrou, de certa forma, a grande campeã da tarde.

Felipe recebe o Argos 2016 na categoria Melhor Ficção Curta, por "Grande Caçador Branco".


Finalmente, Clinton convidou Eduardo Torres para entregar o Argos 2016 na categoria Melhor Romance.  Infelizmente, os trabalhos concorrentes que apareceram projetados na cortina sob o título dessa categoria foram os da categoria anterior.  O problema foi sanado por alguém da plateia que acessou o site do CLFC e passou o celular ao presidente, que então pôde ler os títulos corretos dos romances concorrentes e os nomes de seus respectivos autores.  Eduardo enfim abriu o envelope e anunciou a vitória de Império de Diamante (Draco, 2015), de João Marcelo Beraldo.  Algo surpreso e visivelmente emocionado, o autor subiu o palco para receber seu troféu (inteiro!) e proferiu umas poucas palavras de agradecimento.  Fiquei muito feliz com o resultado, pois acompanho a carreira de Beraldo desde os tempos em que éramos colaboradores na equipe de criação do universo ficcional da Hoplon Infotainment, responsável pelo MMOG Taikodom.

João M. Beraldo recebe o Argos 2016, categoria Melhor Romance, por Império de Diamante.

Clinton, Edu Torres, João Beraldo.


Ao término da parte formal da cerimônia, o presidente do CLFC me convocou ao palco e, após pedir um minuto de aplausos em homenagem a Max Mallmann, autor de literatura fantástica e roteirista de TV falecido há cerca de um mês, passou-me o microfone.  Chegara enfim o momento que eu mais temia na cerimônia.  A perda do Max emocionou e chocou um bocado todos aqueles que o tiveram por amigo nestas últimas duas décadas.  Pensei em ler uma versão resumida da crônica que escrevi sobre o assunto[2], mas acabei resolvendo falar de improviso e, não obstante os olhos marejados, logrei fazê-lo sem chorar.  Esqueci um ou dois tópicos que pretendi abordar, mas, tudo bem, faz parte.
Finda a cerimônia de premiação do Argos 2016, rumamos para o Café do Livro, restaurante já inspecionado por ocasião do resgate do Beraldo e da Ana Merege, cuja oferta de vinhos e espumantes revelou-se mais do que correta.
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Permaneci por cerca de duas horas no Café do Livro.  Ao longo da segunda parte dessa estada, fomos brindados com a mesa-redonda de Clinton Davisson, Bráulio Tavares e Heloísa Seixas.  Ausentes da cerimônia, apareceram no restaurante Miguel Carqueija e a jovem autora Renata Ventura, amiga de Felipe e Daniel.  Carqueija chegou lamentando que não houve tempo para assistir a entrega dos prêmios.  Já Renata, interagiu bem com os presentes em nossa mesa, mostrando-nos seu livro e folheando os nossos.

Nossa mesa no Café do Livro, Armazém 2 do Cais do Porto.

 Erick Sama, Ana Merege, Renata Ventura.

Antologistas premiados, sua cria e seu troféu (inteiro!).

Brindes e comemorações no Café do Livro.

Mesa-redonda de Clinton Davisson, Bráulio Tavares e Heloísa Seixas.

Cápsula do Tempo comparece ao Café do Livro para assistir mesa-redonda.

Tinto Guatambu 2015 faz sucesso.

Beraldo, Renata, Daniel e Cirilo Lemos com suas crias queridas.

Felipe, Edu Torres, Beraldo, Cirilo, Erick e Ana Merege.

Thaís Cavalcanti, Daniel Faleiro e Daniel Ribas.


Na conversa com Felipe e Daniel, as experiências literárias de minha persona Carla Cristina Pereira vieram à baila novamente.  Lembrei que àquela época remota de fins do segundo milênio, alguns autores com existência real comprovada, como é o caso de Roberval Barcellos, foram assumidos durante algum tempo como personae de outros autores.
Erick aproveitou para colocar à venda alguns dos romances e antologias finalistas do Argos 2016 e também a antologia Dinossauros (2016), que organizei para a Draco.  Nosso bate-papo animado foi regado por uma garrafa do espumante Faces, da vinícola Lídio Carraro, e duas do tinto Guatambu 2015, um corte delicioso de Tannat, Cabernet Sauvignon e Tempranillo.  O bom equilíbrio e a qualidade elevada desse tinto surpreenderam agradavelmente os presentes à mesa que lograram experimentá-lo.  Era tão bom e acessível que eu e Edu Torres adquirimos garrafas extras para trazer para nossas casas.  Durante o ágape, conversei, sobretudo, com Erick, Felipe, Eduardo e Daniel.  Falamos sobre os concorrentes do Argos deste ano e as perspectivas dos trabalhos que concorrerão no ano que vem.  Como não podia deixar de ser, comentamos também um bom punhado de livros e filmes sem qualquer relação com o Argos — ênfase especial para os trabalhos de Ted Chiang e o filme recém-estreado A Chegada, baseado na noveleta daquele autor, “The Story of Your Life”.  Presenteei o Felipe com um exemplar de Vita Vinum Est! e Edu declarou ter apreciado bastante a leitura desse livro.  Segundo ele, “o texto flui bem, nem parece um trabalho acadêmico”.

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Quando a mesa-redonda do Bráulio e do Clinton começou, o pessoal do Cápsula do Tempo retornou ao Café do Livro e ocupou suas carreiras no auditório do estabelecimento para assisti-la, mas a maioria dos velhas guardas da comunidade carioca de literatura fantástica, acrescida pelo Erick Sama, continuou batendo papo em nossa mesa, pois, afinal de contas, depois de tantos anos de estrada, dinossauros que somos, já sabíamos mais ou menos o que seria dito ali.  Procuramos não nos exceder demasiado nos brindes e comemorações, para não atrapalhar o bom andamento da mesa-redonda.
Por volta das 16h00, reencontrei meu amigo Ronaldo Fernandes e, aí sim, ele me apresentou à esposa Simone e à filha de três anos, Letícia, com direito, inclusive, a sessão de fotos com a garotinha linda em meu colo.

Simone, Ronaldo, GL-R e Letícia.

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Meio atrasado, reencontrei o pessoal do Cápsula do Tempo numa das mesas instaladas na lateral do Armazém nº 3.  Na sessão mensal de hoje à tarde, analisamos duas noveletas do Ted Chiang, “História da Sua Vida” e “A Torre da Babilônia”[3], bem como o filme A Chegada, que a maioria de nós assistiu na tarde ou na noite de anteontem, dia da estreia nacional dessa produção.
No que concerne o filme, simplesmente adorei.  Ao contrário do que eu temia, não deturpou o cerne da trama delineada na noveleta, limitando-se a mudançazinhas pontuais aqui e ali, bem como à atualização e valorização do cenário político internacional, do início dos anos 1990 para a segunda década do século XXI.  Foi preciso manobrar toda a minha rotina de trabalho nessa última quinta-feira para poder assistir a estreia, mas valeu a pena.

Reunião do Cápsula do Tempo na lateral do Armazém 3:
Thaís Cavalcanti, Renata Aquino, Isabella Alvarez, Thaís Costa,
Stella Rosemberg e Ricardo França.

Reunião do Cápsula do Tempo na lateral do Armazém 3.

Reunião do Cápsula do Tempo na lateral do Armazém 3:
Daniel Faleiro, Mariana Rio, Renata Aquino e Diogo Salles.


Dedicamos muito mais tempo à discussão de “A História da Sua Vida” e A Chegada do que à de “A Torre da Babilônia”.  As discussões do livre arbítrio e da percepção do tempo não como uma experiência sequencial (como é a percepção humana), mas sim como um todo, em que passado, presente e futuro são igualmente conhecidos (como é a percepção dos alienígenas heptápodes) renderam panos para mangas.  Tais questões me intrigaram um bocado quando li a noveleta pela primeira vez em 2011 e me intrigaram ainda mais quando a reli na segunda-feira passada.  A dúvida passa pela cabeça de nove dentre cada dez leitores é se ela ou ele agiria da mesma maneira que a protagonista em relação à concepção de sua filha, se já soubesse tudo o que o futuro lhe reservava.  Após essa segunda leitura, passei a considerar essa noveleta de primeiro contato da humanidade com uma civilização alienígena em visita à Terra como a peça de ficção curta mais bem escrita e mais inteligente que já li.
Já no que diz respeito a “A Torre da Babilônia”, Chiang parte de uma premissa absurda: o universo é realmente regido e limitado pelos parâmetros da cosmologia suméria.  A partir dessa proposta, elabora a narrativa instigante do que acontece quando a construção da torre finalmente termina depois de muitas gerações de labuta e os humanos são capazes de tocar o topo do firmamento com as próprias mãos.  Alguns dos colegas não entenderam o fim da noveleta.  Procurei explicar esse clímax em termos de topologia de universos fechados.
Ao longo do debate, dei um pulo num food truck defronte à nossa mesa e comprei um sanduíche de grife, um tal “Triunfo”.  Na ocasião, soube-me nutritivo e saboroso.  No entanto, quando cheguei em casa há pouco, senti-me mal sob o efeito digestivo maléfico do podrão.
Ao discorrer sobre a excelência técnica, estilística e narrativa dos contos e noveletas do Ted Chiang, acabei confessando meu orgulho por meu conto “Xochiquetzal e a Esquadra da Vingança” ter ficado em segundo lugar na categoria Ficção Curta do Sidewise Awards, atrás somente do “Seventy-Two Letters” do Ted Chiang.
Enquanto o resto da mesa continuava a debater “A Torre da Babilônia” ou outros assuntos, encetei um papo com o Diogo Salles sobre alguns detalhes da construção do meu universo ficcional Três Brasis, sobretudo, no que diz respeito às narrativas incluídas no romance fix-up Aventuras do Vampiro de Palmares (Draco, 2014).  A questão foi levantada por Diogo, a partir do comentário dele sobre a originalidade de romances fantásticos brasileiros com fortes elementos africanos e/ou afro-brasileiros, como Esplendor (Draco, 2016) de Alexey Dodsworth; Império de Diamante do Beraldo e meu Aventuras.  Segundo ele, tais romances não teriam sido tão originais e efetivos se não fosse a pegada da cultura africana.  Diogo também indagou como um vampiro científico foi parar numa história alternativa ambientada no Brasil Colonial.  Expliquei do convite de Jean-Pierre Moumon para que eu escrevesse uma narrativa de vampiros, numa época (1994) em que eu estava cheio de Palmares e Nova Holanda na cabeça...  Deu no que deu e a noveleta resultante, “O Vampiro de Nova Holanda”, foi solenemente rejeitada pelo editor da Antarès.  Mesmo assim, não tenho queixas do histórico de desempenho de publicações e premiações desse trabalho.J

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Encerradas nossas discussões e análises sobre a obra do Chiang, voltei a me integrar a minha outra tribo, ao reencontrar Felipe, Daniel e Clinton.  Por volta das 19h00, cansado e satisfeito, senti que era hora de picar minha mula, regressando à base.  Mutante infatigável, Daniel permaneceu na lida, encontrando e papeando com velhos e novos conhecidos e adquirindo cada vez mais livros.  Simples mortais, eu, Felipe e Clinton, empreendemos uma retirada honrosa e ordeira, arrastando-nos até o outro lado da Praça Mauá, onde embarcamos num táxi rumo à Zona Sul.
Pelo caminho, destrinchamos os resultados deste Argos que nós três consideramos os mais justos dos últimos certames.  À altura da estação de metrô Botafogo, ativamos o assento ejetor de Mr. President, que embarcaria ali rumo a seu hotel em Copacabana.  Dali, nosso táxi prosseguiu até o Jardim Botânico.  Ao saltar, já me sentia bastante adernado por conta do maldito podrão de grife que consumi no food truck...
Jardim Botânico, Rio de Janeiro, 26 de novembro de 2016 (sábado).



Presentes na Primavera Literária:
Ana Lúcia Merege
Bráulio Tavares
Clinton Davisson
Daniel Faleiro
Daniel Russell Ribas
Diogo Salles
Eduardo Torres
Erick Sama
Gerson Avillez
Gerson Lodi-Ribeiro
Heloísa Seixas
Isabella Alvarez
João Marcelo Beraldo
Letícia Fernandes
Luiza Palmeira
Luiz Felipe Vasques
Mariana Rio
Miguel Carqueija
Renata Aquino
Renata Ventura
Ricardo França
Ronaldo Fernandes
Simone Masruha Ribeiro
Stella Rosemberg
Thaís Cavalcanti
Thaís Costa



[1].  As cortinas permaneceram cerradas durante a cerimônia.  Clinton, os premiados e convidados permaneceram o tempo todo do lado das cortinas voltado para a plateia, enquanto a equipe de montagem trabalhava do outro lado.
[2].  A versão integral deverá ser publicada na próxima edição do fanzine Somnium, veículo oficial do CLFC.  Ao que parece, na mesma edição, sairá meu conto de fantasia e cenário alternativo, “A Moça da Mão Perfeita”, ambientado no universo ficcional criado para o conto “Para Agradar Amanda”, lançado na antologia Erótica Fantástica 1 (2012), que organizei para a Draco.
[3].  Ambos presentes na coletânea do autor, História da Sua Vida e Outros Contos (Intrínseca, 2016), recém-publicada no Brasil.