quinta-feira, 3 de abril de 2014

A Saga do Salteador

Concluí há coisa de um ano a saga iniciada exatos treze anos atrás quando escrevi “Capitão Diabo das Geraes”, uma noveleta de história alternativa passada na linha histórica Três Brasis, publicada originalmente na antologia Phantastica Brasiliana, que organizei com Carlos Orsi Martinho para a editora Ano-Luz.

Capa e contracapa da antologia Phantastica Brasiliana (Ano-Luz, 2000).


Desejava escrever um trabalho de história alternativa no universo ficcional que havia estabelecido cinco anos antes para a novela “O Vampiro de Nova Holanda” (abril 1994)[1] e que eu já havia revisitado na noveleta “Assessor Para Assuntos Fúnebres” (agosto 1995)[2] e, naquele primeiro semestre de 1999, eu estava ouvindo bastante o CD áudio Ten Easy Pieces, do Jimmy Webb, particularmente a música “The Highwayman”, que, além de uma melodia belíssima, possui uma letra inspiradora que, como diversas outras letras desse compositor, parece falar direto aos amantes de ficção científica e fantasia.
Ou, no caso, de história alternativa.
Porque, prestando atenção na letra de “The Highwayman” (algo como “O Salteador” em português), senti que tinha tudo a ver com o personagem que atua como protagonista de “O Vampiro de Nova Holanda”, Dentes Compridos, o último dos filhos-da-noite — um exemplar de vampiro natural (em oposição aos vampiros sobrenaturais) cuja espécie evoluiu como predadora de seres humanos.
Daí, retornei ao universo dos Três Brasis para escrever uma noveleta inspirada na primeira estrofe dessa obra-prima de Jimmy Webb, cuja letra original segue abaixo:

THE HIGHWAYMAN (Jimmy Webb © 1977)

I was a highwayman
Along the coach roads I did ride
With sword and pistol by my side
Many a young maid lost her baubles to my trade
Many a soldier shed his life blood on my blade
The bastards hung me in the spring of '25
But I am still alive

I was a sailor
I was born upon the tide
And with the sea I did abide
I sailed a schooner 'round the horn to México
I went aloft to furl the mainsail in a blow
And when the yards broke off they said that I got killed
But I am living still

I was a dam builder
Across the river deep and wide
Where steel and water did collide
A place called Boulder on the wild Colorado
I slipped and fell into the wet concrete below
They buried me in that great tomb that knows no sound
But I am still around...
I'll always be around, and around, and around, and around, and around...

I'll fly a starship
Across the Universe divide
And when I reach the other side
I'll find a place to rest my spirit if I can
Perhaps I may become a highwayman again
Or I may simply be a single drop of rain
But I will remain
And I'll be back again
and again, and again, and again, and again...

*     *     *

“Capitão Diabo das Geraes” (maio 1999) se inspirou na primeira das quatro estrofes de “The Highwayman”, aquela que apelidei “Salteador”[3].
Como poucos anos antes havia assistido a telenovela Chica da Silva na finada Rede Manchete e lido o romance histórico Chica que Manda (Itatiaia, 1966), de Agripa Vasconcelos, percebi que poderia ambientar a ação nos sertões de Minas Gerais de meados do século XVIII, mais especificamente, no Distrito Defeso do Tijuco dos tempos do Real Contratador dos Diamantes João Fernandes de Oliveira e sua mulata bem-amada, Chica da Silva.  Só que num sertão mineiro diferente, pois ao norte daquela província, havia um Estado que não existiu como tal em nosso mundo, a primeira nação soberana das Américas: Palmares, que já teria conquistado sua independência há coisa de setenta ou oitenta anos e se transformado de reino em república algumas décadas antes.

Miniatura mochica de divindade hematófaga pré-colombiana. Pseudoinspiração
para a saga do último filho-da-noite. Pois a novela "O Vampiro de Nova Holanda
foi escrita em 1994 e só descobri a divindade mochica  em janeiro de 2000...


Após atuar durante décadas como espião e agente secreto de Palmares, Dentes Compridos é enviado ao Tijuco com a missão de perturbar ou interromper o fluxo de diamantes que partia do distrito defeso para a metrópole portuguesa, em represália ao apoio velado de Lisboa à rebelião de colonos iorubas, assentados décadas antes pela elite palmarina na região da Primeira República então designada como “Bahia do Norte”.
Sob a alcunha de “Capitão Diabo”, o filho-da-noite lidera um bando de salteadores, em verdade, militares do bem treinado Exército de Palmares, cujo objetivo último consiste em persuadir a Coroa Portuguesa, lá representada na figura do Real Contratador dos Diamantes, a cessar sua intervenção na guerrilha que os iorubas travavam ao sul da República em prol da liberdade religiosa — visto que esses colonos professavam seus cultos africanos, em desacordo com as leis palmarinas, que adotaram a fé católica como religião oficial.  Tal persuasão se dá através de atos de terror contra as autoridades do Tijuco e a população do distrito.  A situação se agrava com a chegada do novo contratador, um vida-curta sagaz, oponente à altura da astúcia e experiência que Dentes Compridos acumulou ao longo de séculos de convívio com humanos de diversas etnias.
“Capitão Diabo das Geraes” foi publicada originalmente na antologia de história alternativa Phantastica Brasiliana (Ano-Luz, 2000) e será relançada no meu romance fix-up Aventuras do Vampiro de Palmares (Draco, 2013).
*     *     *

“Morcego do Mar” (abril 2003) se inspirou na segunda estrofe da música de Jimmy Webb, apelidada “Comandante”[4].
A motivação precípua para escrever essa novela foi o convite de César R.T. Silva para compor uma história alternativa mais encorpada para uma coleção de novelas que ele pretendia publicar sob a forma de livros-solo.  Infelizmente, o projeto não emplacou, mas, de todo modo, a novela foi escrita.  Com mais de 25 mil palavras, “Morcego do Mar” é de longe a maior das quatro peças literárias que compõem a Saga do Salteador.[5]
Agora a serviço da Primeira República, João Fernandes, vira-casaca e ganga branco de Palmares, é enviado para as Treze Colônias Inglesas em plena insurreição que culminaria na Guerra de Independência.  Uma vez lá, ele firma tratados para apoiar os rebeldes norte-americanos, só para descobrir que parte desse apoio consistia em embarcar na Morcego do Mar, fragata da Marinha Palmarina sob o comando de José Meia-Noite, que não é outro se não seu velho desafeto, o Capitão Diabo...
“Morcego do Mar” permanece inédita até hoje.  Será publicada em breve no Aventuras do Vampiro de Palmares (Draco, 2013).

Cenário Naval da novela "O Morcego do Mar", publicada em Aventuras do Vampiro de Palmares (Draco, 2014)

*     *     *

A inspiração para escrever “Consciência de Ébano” (maio 2006) veio da terceira estrofe de “The Highwayman”, aquela a que me refiro como “Engenheiro”[6].
Já a motivação surgiu com o convite para publicar um romance fix-up sobre as aventuras de Dentes Compridos para o selo Unicórnio Azul da editora Mercuryo, então sob comando de Fábio M. Barreto.  Embora o selo tenha publicado apenas dois títulos — a novela de ficção alternativa A Mão que Cria (Mercuryo, 2006), de Octavio Aragão, e minha coletânea de histórias alternativas Outros Brasis (idem) — embalado pelas perspectivas otimistas propaladas pela Unicórnio Azul, acabei escrevendo “Consciência de Ébano”.
Agora a ação se passa na primeira metade do século XIX.  Palmares dispõe de uma malha ferroviária extensa, seus cientistas aceitaram há décadas a Evolução pela Seleção Natural como fato concreto e seus engenheiros começam a cogitar aplicações práticas para a eletricidade.  Nesse clima de avanços científicos e tecnológicos, Dentes Compridos, ora na pele do engenheiro José Trevoso, propõe a construção da primeira represa hidroelétrica de história em pleno rio São Francisco.
No entanto, nem tudo são flores nos rincões da Primeira República.  Pois essa também é a história de João Anduro, neto de João Fernandes e membro do Círculo de Ébano, organização secreta criada pouco antes de Palmares se tornar uma república para proteger o segredo da existência de Dentes Compridos.  Anduro é um mbundo de lealdades divididas.  Por um lado, prestou juramento para defender o filho-da-noite com sua própria vida.  Por outro, julga a proteção que a pátria faculta ao monstro imortal uma abominação e considera a dependência que a República desenvolveu em relação à eficiência mortífera do protegido um sacrilégio.  Esse dilema ético atroz é a mola que propulsiona a narrativa da noveleta.
“Consciência de Ébano” foi publicada originalmente na antologia de história alternativa Vaporpunk (Draco, 2010).

A novela “Azul Cobalto e o Enigma” (maio 2012) foi inspirada na quarta e última estrofe da música de Webb, aquela em que costumo pensar como “Astronauta”[7].
Foi de longe a peça mais difícil de escrever do quarteto e por um motivo muito simples: pelo fato de se passar na época atual de uma linha histórica em que a ciência e a tecnologia se desenvolveram mais rápido do que na nossa, a narrativa praticamente abandona as sendas da história alternativa propriamente dita para ingressar na seara da ficção científica hard.  Seria, portanto, a primeira narrativa no universo ficcional dos Três Brasis com mais cara de FC do que de história alternativa e eu nutria dúvidas se uma narrativa desse gênero funcionaria na prática.  Talvez essa incerteza ajude a explicar o intervalo de seis anos entre a conclusão da terceira peça e a dessa novela.
Depois de matutar durante esse período de tempo sobre como escrever tal narrativa, senti que o momento ideal para concretizá-la havia enfim chegado quando organizava a Solarpunk.  Como antologista, desejava propor um trabalho diferente no livro que estava montando, um texto capaz de fugir um pouco à mesmice das energias alternativas e seres humanos fotossintéticos que, suspeitei, seriam onipresentes na maioria das submissões aprovadas.  Daí, veio a ideia de mandar Dentes Compridos para uma aventura final no espaço interplanetário.
Parte da motivação para escrever essa peça veio de um desafio lançado pelo fã paulistano Ivo Heinz há coisa de quinze anos, quando de nossas andanças pelos sebos da capital paulista numa manhã chuvosa de sábado.  Lá pelas tantas, ele me questionou sobre a ausência de protagonistas brasileiros nas histórias alternativas ambientadas no universo ficcional dos Três Brasis.  Sem pensar demasiado no assunto, comentei que a ideia de um protagonista brasileiro era fascinante, mas que não sabia se teria inspiração para desenvolver uma narrativa plausível a partir da mesma.  Pois bem.  Década e meia se passou até que eu lograsse produzir outro herói brasileiro viável nesta linha alternativa, que não o meu João Fernandes ficcional.  Jonas Aranha surgiu para cumprir esta nobre missão, de todo modo, mais nobre do que a de encontrar e aniquilar o último filho-da-noite.  Pois, em pleno século XXI, Dentes Compridos ainda constitui fonte de preocupações para a comunidade da inteligência militar brasileira.  Aranha é o Azul Cobalto do título: um oficial tetraplégico tornado em super-herói graças à sua armadura invencível, uma espécie de Homem-de-Ferro brasileiro alternativo.  Lógico que “Enigma” é como o Serviço de Inteligência Brasileiro designa seu pior inimigo.
Embora parte da narrativa de “Azul Cobalto e o Enigma” se passe na Terra, as cenas de ação mais intensas são ambientadas num satélite de Júpiter, num veleiro espacial e na estação orbital São Paulo.  O próprio o confronto crucial entre os dois “heróis” não ocorre em nosso planeta.  Concluída a novela, percebi que ela também se encaixaria bem na Super-Heróis, antologia que preparei para a Draco em parceria com Luiz Felipe Vasques.
Além do herói brasileiro, também fiz uso em “Azul Cobalto e o Enigma” da dupla de amigos escritores, Gilson Pellegrino e Carlos Fernandes, que já havia aparecido num conto desta linha histórica, “Gigante dos Pés de Barro” (Megalon, 59 — Dezembro 2000).  Pellê e Fernandes agora se arvoram em investigadores, correlacionando dados para tentar provar a existência de um assassino serial imortal que vem atuando contra o Brasil há séculos.
“Azul Cobalto e o Enigma” foi publicada na Solarpunk (Draco, 2012), terceiro e último volume do projeto de triantologia punk sui generis que organizei para a editora.
*     *     *

Quem sabe um dia não consigo reunir este “Quarteto do Salteador” num único volume?
Se tal acontecesse, como sonhar não custa, o ideal seria que tal coletânea fix-up fosse prefaciada pelo próprio Jimmy Webb.  Seria a glória.

Gerson Lodi-Ribeiro
Maio de 2013.




[1].  Todas as datas publicadas entre parênteses no formato (mês ano) se referem à época da conclusão da peça literária em questão.
[2].  Esses trabalhos foram publicados profissionalmente no bojo das duas coletâneas que lancei em Portugal pela Editorial Caminho.  “Assessor para Assuntos Fúnebres” saiu na Outras Histórias... (1997) e “O Vampiro de Nova Holanda” saiu na coletânea homônima (1998).  Ambas as narrativas foram publicadas em nosso país na minha coletânea de história alternativa Outros Brasis (Mercuryo, 2006).
[3] Fui Salteador
Pelas estradas cavalguei
De espada e pistola à cinta
E muitas donzelas perderam seus adornos em minha lida
E muitos soldados verteram sangue em minha lâmina
Os patifes me enforcaram na primavera de ‘25
Mas eu sobrevivi.
[4]. Fui Homem do Mar
Nasci na preamar
E no mar permaneci
Velejei numa escuna à volta do Cabo Horn, até o México
Numa tormenta, subi o mastro para colher a vela-mor
E quando as vergas quebraram, disseram que morri
Porém, sobrevivi
Quiçá eu viva pra sempre...  Não sei.
[5]. “Capitão Diabo das Geraes” (12.300 palavras); “Morcego do Mar” (25.200 palavras); “Consciência de Ébano” (14.800 palavras); e “Azul Cobalto e o Enigma” (19.600 palavras).
[6]. Fui um Construtor de Represas
Sobre o rio largo e profundo
Onde aço e água se entrebatem
Num lugar chamado Boulder, no Colorado bravio
Escorreguei e despenquei dentro do betão fresco
Eles me sepultaram naquela vasta tumba silenciosa
Mas ainda estou por perto.
[7]. Voarei numa nave
Até o limite do universo
E quando eu chegar do outro lado
Descobrirei um lugar para repousar meu espírito, se puder
Talvez eu possa me tornar um salteador outra vez
Ou talvez eu possa ser apenas uma gota de chuva
Mas sobreviverei
E retornarei
De novo, de novo, de novo e de novo...

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